segunda-feira, 24 de outubro de 2022
quarta-feira, 15 de dezembro de 2021
Entrevista à Revista Eufeme
A poesia é algo de intrigante e até misterioso. A sua existência é muito antiga e desde sempre existiu dúvidas quanto à sua própria definição. Algumas questões costumam ser pertinentes, tais como:
1.
O que é poesia?
2. Para que serve a poesia?
3. Será que
só alguns podem ou conseguem ser poetas?
Quem melhor do que os poetas para definir poesia? Talvez possam não ser as explicações exactas sobre o tema, porém, são sentimentos, desassossegos e também misteriosas afirmações sobre a escrita poética que fascina o homem.
Falei com o poeta António Ferra sobre este tema:
Quando
me sinto atrapalhado para explicar uma coisa, vou à origem da
palavra.
Neste caso, por mais voltas que dê, chego sempre ao
acto da criação — poesis.
Não
vejo a poesia, a palavra poética, como uma arte final.
Nasceu
com a música, com o ritmo, com a cadência de espadeirar o linho, de
perseguir as aves, de caminhar desbravando caminhos.
Por isso,
passados estes milhares de anos, não dissocio a criação poética
da música e do corpo.
Para mim, a poesia é dança numa
concepção muito primitiva de movimentos vocais.
A poesia é
universal, e essa universalidade não lhe vem das línguas divididas
pela implosão de uma torre de Babel.
Vem de “um mover dos
olhos” que nos leva a voar pelos céus criados na poesis.
2.
Para que serve a poesia?
Também
“é para comer”, como dizia a poeta. Mas serve ainda para
alimentar os que residem fora de nós, porque o acto poético é
sempre um eu-tu a
preencher o vazio da fome. Se a palavra não servir para me
transformar, a mim e ao outro, então não vale a pena o fingimento
poético. Ficam apenas malabaristas de circo, porque se aniquila a
liberdade criativa, o baloiçar arriscado no trapézio.
A poesia
serve para acordar a liberdade adormecida dentro de nós, serve para
deslaçar os nós que nos atam à palavra e se vai gastando com uso,
correndo o risco de deixar de significar por falta de destino. A
poesia serve como escola e escala de opções. De mudarmos pelo
auto-conhecimento, e de exibir ao outro a liberdade de mudar. Ou não.
A poesia serve sempre como exercício de liberdade na procura da
verdade. Ou daquilo que cada um pensa ser verdade ao pensar a
liberdade.
3. Será que só alguns podem ou conseguem ser poetas?
A
resposta mais simples seria dizer as vulgaridades:
todos podem
ser poetas
a inspiração é irmã do trabalho diário
lambam-se
os versos como a ursa lambe os filhos,
(como dizia Sá de
Miranda, pelo seu lado de poeta artífice)
A
resposta à questão, prende-se com a relativização das coisas e
dos object/os (ivos). Não existe um poeta, existem poetas, de maior
ou menor dimensão, julgados e avaliados por parâmetros instituídos
pelos poderes — do saber, da qualidade sociopoeticamente aceite, do
dito bom-senso, do dito bom-gosto.
Não basta um poetastro
sentar-se na esplanada e dizer que lhe dói a unha do pé porque uma
pomba diáfana lhe entornou ice-tea nas calças.
Ou outro, que
esgravata o absoluto, o sentido da vida, o silêncio de deus.
Por
outras palavras mais comezinhas:
há
para aí gente que não nasceu para a coisa
e outros que sim,
nasceram poetas inspirados, mas às vezes falta-lhes
trabalhinho
de sapa, garimpa de sílabas,
outros trabalham de sol a sol, mas
falta-lhes a centelha.
domingo, 5 de dezembro de 2021
FUMO (plaquete, 2022)
sábado, 4 de dezembro de 2021
de lito que cometi
Mensagens de recepção do «de lito». Os exemplares seguiram por correio postal normalizado, como passou a ser habitual nestas plaquetes que envio aos amigos.
Na falta da happy hour que nos traga o zelo necessário à sabedoria
de roubar versos, resta saber esperar pelo estrondo que fará da
vibração das brocas uma harmoniosa melodia.
Entretanto…
delituosamente gratos pelo 46º que nos
coube.
(CS e M)
Caro Amigo António
Ferra
Ninguém me tem dirigido desde há uns
bons tempos uma carta pessoal a não ser tu. Coisa preciosa,
estimável e para manter! É um grato prazer receber uma cartinha
tua. Neste verão também dirigi várias cartas em papel e via
correio. Abri o envelope e li «delito» e lembrei-me logo do
«de litro» do Fernando Pessoa. Depois pensei no «lito» (pedra,
calhau) e até em “litografia”. Comecei a ler e vislumbrei
situações da nossa vida social que, metaforicamente, poderão
surgir dos versos: a sereia urbana que foge aos impostos, a carinha
laroca a aldrabar-nos, a funcionária a arejar a marosca
por um motivo inconfessável, traições por todo o lado (de Braga a
Copenhaga), … E também – em leitura sobreposta – podemos
vislumbrar um quotidiano que nos surpreende. Portanto, crítica
social contundente nestes dias de Covid-19 e um quotidiano
que nos envolve completamente.
(ACS)
Acabo de receber com muita alegria o seu objecto. Chamo-lhe assim em homenagem ao Cruzeiro Seixas, para quem um livro não era nada menos do que um "objecto".
Palavras fortes as suas, em que me fica a ecoar o seu verso quase final "fontes malvadas de pesadelo".
(ACF)
Como quem manda simplesmente um recado, e de forma quase clandestina, António Ferra continua a surpreender-nos com pequenos momentos em que o bom gosto, aliado a uma refinada moldura, se manifesta com precisão e argúcia. O delito fica assim sem possível punição porque a certeira metáfora
a derruba e engrandece.
(LC)
sexta-feira, 15 de outubro de 2021
Para quê?
Porque se escreve?
Por necessidade de gritar a existência.
Escreve-se para negar a morte.
Escreve-se para dizer aos outros que pensamos a vida e a
morte.
Escreve-se por coscuvilhice, relatando o que outros fazem,
como vivem,
como respiram, como comem, como matam e como amam.
Escreve-se para exibir a própria chaga,
«olha-me como eu sofro,
aliviem a minha dor com a vossa piedade».
Escreve-se por vaidade, por narcisismo insano, ansiando
pela glória.
Uma coisa é escrever, outra é tornar público
o que se escreve.
Mesmo que seja apenas para leitores únicos,
aqueles que se amam, aqueles que se odeiam
e os outros assim-assim.
Hoje há cada vez mais editoras que cobram dinheiro aos
autores, tirando partido do narcisismo
escriturário. Vendem-lhes impressão, tinta e a ilusão da
revelação do génio escondido.
Todos os escritores se julgam génios não reconhecidos
e insistem infinitamente na escrita para demonstrar a sua
genialidade.
E há cursos que ensinam a escrever,
para que um não-escritor se torne escritor
através de um kit de escrita.
Nas outras artes não será tanto assim.
Um artista plástico não privilegia a palavras,
constrói imagens onde a batota, se a houver, é mais
facilmente denunciada.
Um músico, idem, assim como um realizador de cinema.
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
IMPROVISO
Há gente que escreve diários de improviso.
O improviso é o sopro do acaso.
O que é o acaso?
É indefinível.
O improviso requer treino continuado,
desde a ciência, à performance dramática,
à expressão plástica, à escrita esferográfica.
Proporciona a liberdade.
O que é a liberdade?
É indefinível.
O autor da manifestação improvisada constata que foi levado
por caminhos de que ele próprio não suspeitava,
da baixa protopombalina a paço de arcos do triunfo.
Improvisar tem sempre uma parte em que se parte do nada
e se arrisca o crédito ou descrédito do controleiro de bairro
O que é o improviso?
É indefinível.
Eu não posso improvisar um poema ou texto poético
se não tiver a rede para suportar uma possível queda
ou uma vara flexível para me equilibrar no arame tirante
neste circo ambulante onde performa o poeta errante.
Não posso escrever sobre o quotidiano se não tiver a consciência
da necessidade de o sustentar numa dimensão universal.
Um ser desumano pode não querer ser artista,
mas pode ser artista sem ter consciência.
(desculpe, foi sem-querer)
O que é a arte?
É indefinível.
Estou farto desta missão da qual peço a demissão.
(indeferido)
Há gente que escreve diários.
Ainda bem, têm sempre um motivo para o texto escrito.
É fácil,
é apenas descrever o que vai acontecendo, ram-ram no gerúndio.
Mas os diários não são arte,
embora às vezes possam parecer, mas aí já não é diário, diário íntimo.
E arte não é íntima, mas parece.
O diário é o verdadeiro lugar da mentira,
ninguém confessa a si próprio ou aos outros,
a autenticidade dos acontecimentos.
(«lier», como dizia Tennesse Williams)
Diário:
hoje, quando me levantei, senti tonturas e uma dor contínua no pescoço,
depois tomei o pequeno almoço, café da Colômbia e pão com manteiga de amendoim.
Fumei dois cigarros light enquanto lia as notícias.
Saí para a rua, as tonturas passaram, já nem me lembro se tinha ou não a dor no pescoço.
O que é uma dor no pescoço?
É indefinível.
O drama importuno está na escassez da energia.
Porque foi sugada até ao último lume sem se imaginar
a morte da criação.
A sincronização das heranças é que subleva a incapacidade
de produzir os bens mais essenciais da humanidade -
o plancton da alimentação física e psicológica.
Há gente que escreve diários.
Quando o Gonçalo me disse que tinha chegado ao fim da linha,
que tinha esgotado a alma até à última molécula,
sabia bem que já não tinha capacidade para improvisar.
E ficou-se por uma letargia galopante, até ao silêncio total.
(os sapatos já nem lhe serviam)
A escrita criadora devia ser obrigatória,
de tal modo que se pudesse confundir com a escrita pragmática e funcional.
A escrita energética é uma actividade burocrática só combatível através do improviso.
O improviso surge-me quando tropeço na lógica,
estende-se a toda a matemática humana desde um tal de Mileto.
(Θαλής ὁ Μιλήσιος)
Neste momento priveligio a expressão escrita, plástica e performativa.
Todas residem no corpo e centram-se nos movimentos da mão,
(como dizia Ernesto de Melo e Castro, cito: «quem máquina não tem à mão se vem»)
e da voz, também outra parte do corpo.
Este movimento é abrangente, enraíza-se em toda a erupção criativa,
uma espécie de magma absurdo da angústia
(eu acrescentaria existencial, à maneira de Sartre)
Há gente que escreve diários.
O Gonçalo relatou-me os últimos movimentos da mão,
quando o improviso se lhe morrera, antecipando a sua própria morte.
Contou-me também as diletâncias da juventude
onde improvisava o amor, a ira e a gula.
O mais difícil é inventar, aí nem o improviso vale.
O que é inventar?
É indefinível.



